Manaus sufoca com o ar mais tóxico do mundo

Manaus amanheceu encoberta por fumaça em 17 de outubro de 2026. Segundo a plataforma IQAir, às 8h02 o índice de qualidade do ar chegou a 693 AQI+, acima dos 222 registrados em Singapura.

A fumaça está associada a incêndios florestais no Amazonas, em meio à estiagem e à baixa umidade. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) contabilizou 1.830 focos de queimadas no estado entre 1º e 17 de outubro, alta de 109% em relação ao mesmo período de 2025.

Os efeitos foram relatados por moradores de Manaus, cidade com mais de 2,3 milhões de habitantes. Vitor Maia, morador da Compensa, contou que sentiu irritação na garganta e ardência nos olhos, enquanto o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Amazônia Jesem Orellana alertou para o risco à saúde.

fumaça em Manaus

A Polícia Federal (PF), a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) apuram suspeitas de incêndios planejados. O governo federal também anunciou reforço no combate ao fogo e atendimento à população afetada.

Poluição do ar e impactos na saúde dos moradores

O pesquisador da Fiocruz Amazônia Jesem Orellana mediu a concentração de material particulado fino (MP2.5) em 592 µg/m³, cerca de 40 vezes acima do limite diário de segurança recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 15 µg/m³. Ele classificou a condição como grave para a saúde pública.

Orellana orientou que, durante a concentração elevada de fumaça, as pessoas permaneçam em casa, com portas e janelas fechadas. A recomendação foi direcionada especialmente a crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.

Além da irritação na garganta e da ardência nos olhos já relatadas por Vitor Maia, o morador da Compensa contou que sentiu palpitações e viu fumaça dentro de casa. Célia Silva, também moradora do bairro, disse que acordou às 3h com cheiro forte de fumaça; a medição local apontou índice de poluição de 336,9.

Focos de queimadas e condições que favorecem os incêndios

Entre janeiro e outubro de 2026, o Inpe registrou 8.084 focos de queimadas no Amazonas, ante 4.545 no mesmo período de 2025, uma alta de 78%. Segundo o Ibama, o fogo consumiu mais de 674 mil hectares no estado, área equivalente a 6.740 km² e superior aos cerca de 5.760 km² do Distrito Federal.

Lábrea, Autazes, Boca do Acre, Itacoatiara, Novo Aripuanã e Maués estão entre os municípios amazonenses com mais queimadas. No Pará, foram contabilizados 5.922 focos em outubro, sobretudo em São Félix do Xingu, Altamira, Itaituba e Portel.

A pesquisadora do Inpe Karla Longo analisou imagens de satélite que mostram grandes queimadas entre Santarém e Manaus, inclusive ao longo da margem do rio. Ela associou as plumas de fumaça a queimadas ligadas ao desmatamento e observou que os focos permaneciam ativos por dias.

Com a estiagem severa e a baixa umidade, o solo e a vegetação perdem água e ficam mais suscetíveis ao fogo. Longo afirmou que o acúmulo de madeira e galhos em áreas de floresta derrubada, junto das condições associadas ao El Niño forte, favorece a propagação e a permanência dos incêndios.

Investigação sobre suspeita de ação coordenada

Brigadistas do Ibama receberam relatos de testemunhas sobre pessoas que teriam ateado fogo na floresta. A Polícia Federal (PF) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apuram se incêndios foram planejados em grupos de WhatsApp como uma ação coordenada, chamada de “dia do fogo”.

O ministro do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que a investigação considera a possibilidade de uma ação organizada e a eventual relação com o período eleitoral. Ele citou como referências episódios de incêndios simultâneos no Pará, em 2019, e em São Paulo, em 2024, sem afirmar que uma ação semelhante tenha sido comprovada no Amazonas.

Em 16 de outubro, Capobianco informou que suspeitos já haviam sido identificados por crimes ambientais e que prisões poderiam ocorrer em breve. O ministro disse que a apuração reúne inteligência dos governos federal e estadual e defendeu a responsabilização dos envolvidos para combater a impunidade.

Reforço federal no combate ao fogo e no atendimento à população

Uma força-tarefa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) atua com brigadistas da Força Nacional de Segurança e aeronaves das Forças Armadas. Em 18 de outubro, uma comitiva de quatro ministros, das áreas de Meio Ambiente, Justiça, Defesa e Integração Regional, foi anunciada para coordenar a ampliação do combate aos incêndios.

O número de aeronaves mobilizadas passou de 11 para 16, incluindo um segundo avião KC-390, capaz de lançar 19 mil litros de água por operação; o primeiro tem capacidade para 12 mil litros. O reforço também inclui helicópteros, aviões Air Tractor, aeronave de apoio logístico, veículos terrestres e embarcações.

Desde 9 de outubro, as equipes haviam lançado cerca de 600 mil litros de água em 260 horas de voo, e o Ibama contabilizava 317 incêndios extintos na temporada. Dos R$ 14 milhões destinados à Defesa Civil, parte seria usada na contratação de duas aeronaves adicionais.

O Ministério da Saúde anunciou a instalação, em 20 de outubro, de uma base descentralizada da Força Nacional do SUS em Manaus. A estrutura foi prevista para atender moradores afetados pelos incêndios e pela fumaça.

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